terça-feira, 19 de março de 2013

Compliance

Fugindo dos topicos sobre emprego, universidade etc. Trago um assunto muito interessante tratado em um blog que eu leio com uma certa frequência. Baseado em fatos reais, o filme Compliance trata da submissão a autoridade levada a niveis extremos. Esta é uma realidade tao longe da nossa?
Boa leitura!

Via : http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/03/ate-onde-obedecer.html

Vi um filme perturbador esses dias: Compliance. É uma produção americana independente que fez relativo sucesso em Sundance no ano passado (veja o filme online com legendas).

Mas, se chegar ao Brasil, irá direto pro dvd, porque não tem atores famosos nem nada. Uma leitora me falou do filme, já faz tempo, e finalmente vou spoileá-lo pra você. Desculpa, é só que é difícil falar dele sem revelar um pouco do que acontece.
Compliance é uma palavra feita sob encomenda pro título, porque significa concordância, conformidade, obediência. E é disso que trata o filme. Começa com a gerente de uma lanchonete de fast food sendo insultada pelo fornecedor. A grande crise é que algum funcionário deixou um freezer aberto e eles perderam bacon e picles (imagina uma lanchonete sem esses ingredientes básicos do consumidor americano!).
No meio do expediente, a gerente recebe um telefonema no seu escritório: é um policial perguntando o nome de uma jovem funcionária loira. Ela teria supostamente roubado a carteira de uma cliente. Há provas e tal, segundo ele. E agora ele vai conduzir uma investigação e precisa da ajuda dela, da gerente.
Falou com a pessoa certa. Segundo Barbara Ehrenreich, não há ninguém mais conformista, mais puxa-saco do poder, que gerentes de lanchonetes. É o que ela afirma no seu livro Nickel and Dimed. Pra escrevê-lo, ela trabalhou durante poucos meses nos empregos que não exigem qualificação (diarista, garçonete, funcionária no Walmart). E ela chegou à conclusão que é impossível alguém sobreviver nos EUA ganhando 7 dólares a hora, que é basicamente o salário mínimo. Tem que ter mais de um emprego, senão não dá pra pagar o aluguel. 
Enfim, Ehrenreich conta que o gerente da lanchonete em que ela trabalhou não podia ver qualquer garçonete parada. Sentada, nem pensar. Ele imediatamente mandava a moça fazer alguma outra coisa, porque ficar sem fazer nada equivaleria a roubar dinheiro do empregador. E, pra piorar, quem disse que gerente ganha bem? Ganha só um pouco melhor que os funcionários que ele ajuda a explorar.
A gerente em Compliance não parece ser má pessoa, mas ela tem uma missão a cumprir: obedecer a quem manda e fazer com que seus subordinados obedeçam. Portanto, quando o policial, por telefone, pede pra que a gerente reviste a funcionária, ela obedece. Quando ele lhe pede para que a moça tire a roupa para ser revistada, ambas ficam sem jeito, mas concordam.
E o filme vai piorando, como se fosse um legítimo filme de terror. A funcionária tem que permanecer nua dentro da sala, mal coberta por um avental. E -- o policial insiste por telefone -- ela precisa ser vigiada. Como a gerente não pode ficar com ela o tempo todo, porque a lanchonete está cheia, ela deixa (seguindo as recomendações do policial) um jovem cozinheiro pra supervisioná-la. E ele também passa a seguir instruções.
A identificação é enorme. Quem vê o filme pensa: e se fosse comigo, eu iria concordar com a figura de autoridade na linha? Até que limite? Eu me rebelaria? E quando eu perceberia que aquele cara ao telefone não é policial coisa nenhuma?
O jovem cozinheiro se recusa a fazer o que o homem na linha manda. Mas sua preocupação com a colega acaba aí. Ele não tenta chamar a polícia pra comprovar a história, nem se intromete pra barrar o que virá em seguida. O mesmo com a sub-gerente, que mostra empatia pela moça, mas tampouco mexe um dedo para ajudá-la.
Enquanto isso, o homem na linha não para de elogiar a gerente –- como ela é cooperativa, como ela está ajudando, como ela manja do assunto. Ele pede que ela deixe algum outro homem tomando conta da garota. Ela deixa o noivo, um senhor de meia idade, que tinha saído pra beber umas cervejas com os amigos.
E aí a funcionária é estuprada. E o noivo está apenas cumprindo ordens.
Você vê o filme e começa a xingar a tela. Não, não é possível! Ninguém seria tão estúpido de cair num trote desses! E como o filme pode mostrar que tanta gente cai? Negativo, é pura ficção. Eles só podiam estar mentindo quando disseram que a trama era baseada em fatos reais.
Exceto que... é verdade mesmo. Tudo isso aconteceu. Uma reportagem de 2005 (sete anos antes do filme existir) descreve todo o horror. Um episódio de Law and Order: SVU com o Robin Williams usa o caso como pano de fundo. Ah, mas mesmo assim os realizadores de Compliance devem ter exagerado! Não. Há um vídeo gravado mostrando o que ocorreu naquela sala. E dá pra ver parte do vídeo nessa matéria de TV.
Pior: não aconteceu só uma vez. Em dez anos, houve 70 casos parecidos nos EUA. Suspeita-se do mesmo sujeito. Registros telefônicos indicam que nem sempre ele era bem sucedido. Às vezes tinha de ligar para dez lojas até que um gerente mordesse sua isca. Mas 70 morderam.
“Quando você aceita a autoridade de alguém, você se torna uma pessoa diferente. Você se preocupa mais em quão bem você está cumprindo ordens do que se elas estão certas ou erradas”, diz um psicólogo que foi biógrafo de Dr. Stanley Milgram, professor de Yale e responsável por um estudo famoso em 1961, que ele realizou para tentar descobrir por que tantos alemães seguiram ordens durante o Holocausto. 
Os participantes do experimento recebiam a ordem de um cientista, que lhes dizia que eles deveriam acionar um botão que dava eletrochoques num aluno cada vez que ele cometesse um erro. A voltagem aumentava a cada erro (o aluno era um ator e não sofreu choques, mas os participantes não sabiam). Apesar do desespero e das súplicas do aluno, quase dois terços dos participantes acionaram os choques. Simplesmente porque uma figura de autoridade os mandou fazer isso. É o bastante pra gente perder a fé na humanidade.
Vídeo real: moça ouve q será revistada
No caso do trote mostrado em Compliance há o componente de que empregados de lanchonetes estavam ávidos por concordar. Uma socióloga lembra que a qualidade mais valorizada num empregado de restaurante fast-food é a obediência. Sem discussão, certo?
Para um agente aposentado do FBI que serve como consultor contra trotes para a franquia Wendy's, “Você e eu podemos julgar essas pessoas como completas idiotas. Mas elas não são treinadas para usar o bom senso. Elas são treinadas para dizer e pensar, 'No que eu posso te ajudar?'”
Vídeo gravado; noivo da gerente
Pouco depois de deixar a lanchonete, o noivo da gerente ligou pro melhor amigo e disse: “Eu fiz algo terrivelmente ruim”. Na vida real, ele tinha 42 anos, dois filhos, era frequentador da igreja, e treinava equipes juniores de baseball. Quando seu amigo depôs, o descreveu assim: “Ele é um ótimo cara, um ótimo modelo pras crianças. Nunca teve sequer uma multa de trânsito”.
A gerente na vida real
Na realidade, o que Compliance expõe se passou num McDonald's, e a gerente rompeu o relacionamento com o noivo após ver o vídeo gravado no escritório. Nunca mais falou com ele. Ela foi suspensa e depois despedida por permitir a entrada de não-funcionários no escritório. Além disso, foi condenada a um ano de prisão. A pena pro ex-noivo foi de cinco anos. Mais tarde, a gerente processou o McDonald's, que não havia lhe comunicado sobre esse tipo de trote. Ela, que também se considera vítima, recebeu um milhão de dólares de indenização.
Vítima na vida real
Já a principal vítima, a menina, desenvolveu síndrome do pânico, insônia, depressão, e desistiu dos planos de cursar medicina. Evidentemente, ela também processou o McDonald's, que a responsabilizou no tribunal por não ter gritado ou saído correndo da loja, ainda que estivesse sem roupa. Não adiantou: em 2007 a franquia de fast food, que vale 19 bilhões de dólares, teve de pagar 6 milhões à moça.
O homem que fez a chamada, e que segue sendo o principal suspeito dos outros 69 trotes, foi absolvido. Ele alegou que não fez nada, além de falar ao telefone. A culpa foi de quem obedeceu.

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