Como eu havia explicado ha alguns posts atras, eu participei de uma seleção para poder me candidatar à um cargo de professora nas universidades francesas. Passei a primeira etapa e devia encara a segunda, onde tinha que me apresentar diante de uma equipe de jurados (professores) que iriam dizer em seguida se eu era apta ou não para trabalhar com a equipe deles. Em cada entrevista havia em média 8-10 candidatos (maximo 12, minimo 6) e o stress nas primeiras entrevistas beiravam niveis no limite do suportavel.
 |
| Por onde andei... |
Toulouse (22/04). Ainda não conhecia essa cidade, a 4a maior da França
depois de Paris, Lyon e Marselha. Tive uma sensação otima, curti muito o
clima de la, acho que o sudoeste da França é uma das regiões onde as
pessoas sao mais simpaticas. A começar pelos meus amigos Patricia e Luis
que nao sao franceses, mas moram la. Eles me acolheram muito bem e me
levaram para experimentar pratos tipicos. Nao foi dessa vez que eu
experimentei o famoso cassoulet (feijao branco com pato) mas provei um
canard confit (carne de pato cozida na panela) dos deuses. Esses
momentos relax para conhecer a cidade, beber um bom vinho na cia dos
dois foram fundamentais para eu nao ficar tao estressada. E isso eu
estava e muito ! Imaginem a situação : entrevista de emprego. Agora
imaginem que essa mesma entrevista nao é feita com a equipe de recursos
humanos ou com o teu futuro chefe, mas com 16 professores sentados na
tua frente ! Eu tinha que apresentar meus trabalhos durante 10 minutos e
apos eu tinha 15 minutos de questões. Sobre tudo !! Sai de la com sensação de fracasso, pois estava muito tensa e gaguejei. Isso! Eu nao falo muito bem em francês quando estou nervosa ou cansada. A boa noticia é que descobri ha alguns dias que dos 9 candidatos presentes eu fiquei em 4o lugar. Essa classificação para mim teve gostinho de 1o lugar, pois foi dificil demais.
 |
| Centro de Toulouse, os prédios são rosados. |
Volta para Grenoble : covoiturage (sistema de caronas pagas). Eficaz, barato e ecologico!
Next direction :
Saint Nazaire (06/05)
. Entre Toulouse e Saint Nazaire eu tive um tempinho para descansar, pois essa foi no mês de maio. Peguei um voo de Lyon até Nantes e depois um trem até Saint Nazaire. Eu tive a sorte de ter uma amiga que era de la e assim pude ficar hospedada na casa dos pais dela. Isso faz toda a diferença pois pude conhecer a cidade antes de passar pela entrevista. Ao contrario de Toulouse, onde fiquei na frente do pc revisando mil vezes antes de me apresentar, em Saint Nazaire deicidi que iria fazer um pouco de turismo. Fui à La Baule (praia linda do lado de SN), passeei com eles pelo centro, pelo porto e até pelo distrito industrial (neste ultimo pude recuperar dados preciosos para apresentar na minha entrevista). Aprendi um pouco de historia, pois a cidade foi completamente arrasada durante a 2a Guerra assim como outros portos importantes na França. A presença do exército alemão ainda é muito recente e deixou marcas profundas nessa região. Apesar de serem como os bretões, oficialmente Saint Nazaire faz parte do Pays da Loire. Quanto à entrevista : o cargo não era muito interessante, era para ensinar logistica que nao é muito a minha area, mas ja vi que os professores eram bem mais acessiveis que em Toulouse. Ao invés de 16, aqui eram 6 professores. Clima convivial, perguntas interessantes e senti que eles apreciaram a minha prestação. Ainda não sei qual a minha classificação, mas sabendo que havia duas candidatas locais, tenho consciência que dificilmente serei a primeira colocada. O que me atraiu aqui foi o estilo da cidade na beira da praia, a proximidade de Nantes, cidade grande e com aeroporto e também a equipe de trabalho.
 |
| A famosa ponte de Saint Nazaire que atravessa o estuario do rio Loire |
Terminada a entrevista fui direto para Nantes pegar o meu voo de volta. Briguei com a funcionaria da Easyjet que nao queria aceitar minha pequena mala na cabine. No final deu tudo certo, mas o stress foi desnecessario.
Depois de alguns dias em Grenoble me preparando para a terceira entrevista, fui para
Clermont-Ferrand (10/05)
. Ha três horas de Grenoble, decidi ir de carro. Para isso, me inscrevi no site do covoiturage e aceitei a cia de 3 gurias que pagaram para ir comigo até Clermont Ferrand. Sobre o cargo : não era em Clermont Ferrand, mas em Montluçon, cidade minuscula ha 1h30 de CF. O cargo nao era muito na minha area, tb na area de logistica, fui sem muitas expectativas. Como não tinha certeza de como iria me sair nas outras entrevistas, ia em todas, mesmo naquelas onde as atividades nao me interessavam muito. A cidade de CF é muito bonitinha, é uma região de vulcoes (extintos) e os invernos costumam ser mais frios que em Grenoble. As pessoas não são especialmente simpaticas, vide que eu estive em Toulouse e em Saint Nazaire onde a simpatia é caracteristica local. A principal surpresa em CF foi que encontrei uma outra brasileira que também estava fazendo entrevistas. Rimos pois nao nos demos conta até eu perguntar, mas afinal, teu sotaque é daonde ? Quanto a entrevista : eu fui bem, estava muito segura de mim, mas tinha uma professora que era muito chata. Ela sabendo que eu nao era da area da logistica me perguntou como eu iria tratar meu primeiro curso de introducao a logistica para o primeiro ano da graduação. Eu respondi de maneira diplomatica citando alguns temas de base que eu me lembrava, mas que estaria aberta a sugestoes da equipe, pois teria que me adaptar ao modo deles. Ora, um curso se prepara bastante, nao em 5 segundos durante uma entrevista. No final, essa mesma prof deixou subentendido que ja havia muitas mulheres na equipe de Montluçon. Ao que me deu vontade de dizer, que otimo, entao vou embora.
Momento cara de pau : cheguei na entrevista quase sem bateria no celular e antes de começar pedi se poderia carrega-lo. No inicio nao quiseram, pois eu poderia estar gravando, mas a graça e simpatia brasileiras conquistaram a confiança dos jurados.
Curiosidade sobre Clermont-Ferrand : a empresa Michelin, do bonequinho branco, é de la.
 |
| Praça central de Clermont Ferrand, cidade simpatica, mas pessoas gélidas. |
 |
| O simbolo da cidade |
Voltei de carro, dessa vez sem dar carona. 6 horas no mesmo dia foi bem cansativo.
De volta a Grenoble, tive que descansar um pouquinho, ou seja 1 dia sem fazer nada, absolutamente nada para me preparar para a etapa mais dificil do tour de France : o trajeto para
Potiers (13/05)
.
Apesar de a França ter um sistema otimo de trens com os famosos TGV (trens super rapidos), certas regioes nao sao de facil acesso, ainda mais quando se mora longe de Paris. Pois esse foi o problema para ir para Poitiers. O trajeto iria me custar 300 euros passando por Paris (além do tempo do trajeto ser mais longo, passagens de ultima hora costumam ser bem caras). Assim decidi pegar o carro e encarar 6h30 de road trip. Observação : eu nao dirijo ha muito tempo e esse foi um super desafio. Claro que nao consegui fazer a viagens nas 6h 30, pois parava a cada 2horas para me esticar, beber um café, comer algo. No total demorei quase 8 horas. Chegando la, fiquei num hotel bem simples, mas o pior nao era isso, era que embaixo tinha um bar de bebado. Serio, tava muito podre, senao teria dado meia volta. Eu so queria um banho e cama fofa. Nesse ponto, o hotel era correto, chuveiro bom e banheiro limpo.
A cidade de Poitiers é muito bonita, é toda fortificada, com prédios super bem conservados. Decidi ir na entrevista a pé para conhecer um pouquinho mais. Maldita idéia, pois a cidade é para esportistas. So tem lombas e daquelas de cansar mesmo. Ainda bem que eu tive a maravilhosa idéia de ir de sapatilhas e colocar o salto na bolsa. Me senti como Uma secretaria de futuro (filme dos anos 80) andando pelas ruas de NY de tênis e colocando o salto no escritorio.
Ponto alto de Poitiers : o cargo me interessava muito, era em estratégia e desenvolvimento territorial. Ainda mais pois o clima era muito bom, havia uma mesa de pebolim na sala dos professores e a recepcao com café e bolo marcou muitos pontos. Eu presto atençao nesses detalhes. Nisso descubro que eles tem muitos projetos com o Brasil e que precisavam de alguém que estivesse disposto a trabalhar entre os dois paises. ai, ai ai !!! A entrevista foi boa, achei que tinha grandes chances, pois nao ha muitos candidatos com o meu perfil.
 |
| Poitiers: lindinha, mas é tão longe... |
Depois recebi um balde de agua fria : me adoraram, mas me classificaram em 3o lugar. Ao menos conheci pessoas que trabalham sobre o meu tema e com o Brasil. Bons contatos com a diretora da faculdade que me contatou pessoalmente.
Sai rapidinho de Poitiers para encarar a proxima etapa :
Pau (14/05)
. Sorry, mas nao é nenhum palavrão, é o nome da cidade mesmo e se pronuncia Pô. Ha 5 horas de viagem de Poitiers em direção aos Pireneus, cadeia de montanhas que separa a França da Espanha. Cheguei podre de cansada e fui direto para o hotel. na verdade nem deu tempo de conhecer a cidade pois minha entrevista era prevista para as 8h da manhã. O campus parece ser bem legal e os professores acessiveis. Fiquei com uma otima impressao. Eles estavam muito interessados com o meu perfil internacional e tb com o fato de me comunicar em espanhol (nao digo que falo, pois nao posso exagerar, mas a gente se entende). O problema de Pau é que apesar de ser um lugar tranquilo, agradavel, perto da montanha e da praia, é muito longe de tudo. A cidade mais proxima é Toulouse e o trajeto de carro até Grenoble é impraticavel. A minha volta duraria mais de 8 horas, por isso decidi fazer um pit stop em Toulouse, novamente na casa da Patricia e do Luis, antes de encarar mais 5h30 até Grenoble.
 |
| Cidade que apesar do nome estranho é otima. Onde achei as pessoas mais agradaveis. |
Segundo informações do comitê de seleção, em Pô eu fiquei em 3o lugar. Nada mal, sabendo que havia uma candidata local e uma outra que conhecia todo mundo.
Depois dessa etapa, tinha mais uma entrevista, agora com a
Corsega (17/05). Hesitei muito se ia ou nao ia, pois é uma ilha e é complicado de chegar até a Universidade que fica nas montanhas. Além disso, o trajeto de trem e avião teria um custo alto. Estava quase certa de nao ir, até que tenho a brilhante idéia de perguntar se posso fazer a entrevista por videoconferência. E o pedido é aceito! Depois de tanta formalidade, confesso que fiquei surpresa. Esse cargo, apesar de ser numa area que eu adoro : PME e territorio, nao estava nas minhas prioridades. Alias, provavelmente recusaria caso fosse classificada em primeiro lugar. Assim, fiz sem stress nenhum e ai foi nesse momento que me dei conta que virei uma pro das entrevistas. Tirei de letra todas as perguntas feitas durante os 45 minutos. Foi longa, mas as questoes eram interessantes, nao pareceu tanto. Adorei a equipe, mas o diretor da faculdade fez o comentario no final : "Pensa bem antes de aceitar vir para ca, caso tu tenhas a escolha".
 |
| Infelizmente não deu para ir nessa ilha. |
Não conheço o resultado da Corsega, mas acho que fui bem classificada.
Tudo ia se encaminhando para a ultima etapa : Direction la Bretagne! Essa foi a região onde mais tive entrevistas:
Brest (20/05) e Rennes (22 e 24/05). Dada a distância entre Grenoble e Brest, fomos de avião. Digo no plural, pois desta vez fui acompanhada da Jessica, amiga e colega da faculdade de Grenoble. Ela ia fazer uma entrevista em Brest no mesmo dia que eu. Eu não sei explicar direito, mas me sinto em casa nessa região. Ja conhecia Brest de outros carnavais. Fui duas vezes de férias em Roscoff que fica ali perto e tinha que passar por Brest, e também em uma conferência em Brest. Reservei no mesmo hotel de sempre, mas com uma promo daquelas otimas na internet. Pegamos o melhor quarto, parecia estilo palacio. Acho que mereciamos, pois nos duas ja nao aguentavamos mais ficar viajando para essas entrevistas. Acho muito mais agradavel poder viajar com alguém junto, pois da para passear, conversar e isso ajuda a ficar menos estressada. Apesar que nos duas nao estavamos nem um pouco estressadas.
Porque Brest ? A cidade fica na praia, com agua gelada, mas é praia, é na região da Bretanha, tem aeroporto, os aluguéis sao beeeem baratos e o cargo me interessava. Pelo jeito ja da para perceber que o fato de o cargo me interessar nao é a unica variavel, é importante, mas tem todo um sistema a analizar (logistica, habitação, cultura, universidade). A Jessica foi pela manhã e não achou que foi bem. Eu tinha a minha entrevista a tarde. Os jurados eram quase os mesmos que ela teve pela manhã. Chegada a minha vez, depois de quase 2h de atraso, apresento os meus trabalhos. Os professores nao tem tempo a perder e cortam no ultimo slide dizendo que os meus 10 minutos haviam acabado. Dai vieram 5 minutos de questões sobre a minha vida pessoal e se eu realmente viria morar em Brest. Vi que para eles era so isso que interessava. Respondi mal, disse que viria mas que se nao desse certo na França talvez fosse para o Brasil. Ai tu vê que uma frase mal colocada estraga tudo. Nao tenho os resultados oficiais, mas acho que nao fui classificada.
 |
| Brest sempre acolhedora, mas o tempo estava dificil. |
A tardinha pegamos o trem para ir para Rennes.
No dia seguinte tinha a minha proxima entrevista em
Rennes 1. Coloquei um numero, pois em Rennes tem duas universidades : Rennes 1 e Rennes 2. Ficamos hospedadas na casa do Franck, colega que fez a tese em Grenoble e que atualmente mora em Rennes. Ele foi muito querido, um otimo anfitrião e foi otimo poder reve-lo depois de tanto tempo. A essa altura do campeonato, eu ja estava chutando o balde, nao tava nem um pouco estressada com as entrevistas. No dia seguinte fomos os três para a faculdade e eu na maior cara de pau digo que quero tomar um café antes de ir para entrevista. Nao estavamos adiantado, logo iriam verificar se eu estava la, mas eu queria um café. Acabei falando para uma candidata : olha, vou ali embaixo tomar um café, qualquer coisa diz ai que eu volto daqui a pouquinho. Na verdade eu falei isso pois ja sabia que eu sempre ficava por ultimo, pois meu sobrenome começa com S. Nao foi por maldade, foi por ser sem noção mesmo. So sei que o pessoal me olhou com cara de quem é essa guria? Chegado o momento da entrevista eu apresentei tudo de maneira super tranquila, respondi tao bem as questoes que quase pensei, nem sou eu quem esta respondendo. Mas era, dei o melhor de mim! E sai de la confiante. So que dai o stress começou a tomar conta, pois eu estava aguardando a bendita ligação, a ligação que o presidente do jury faz para quem ficou em 1o lugar. Eu sabia que se em Rennes eu nao fosse a primeira, todos os outros queriam ir para la. Ou seja, sem chances.
De toda a maneira, comemorei uma boa entrevista, a melhor de todas. Fomos jantar em uma creperia e bebemos cidra. No dia seguinte pela manha, fico sabendo que fui eu a escolhida !!! Quanta alegria ! Liguei para todo mundo que eu podia porque nao sei ser discreta hehe.
 |
| Meu novo lar : Rennes! |
Nesse dia aproveitamos para passear e conhecer Rennes. Eu ainda pensava se iria na ultima entrevista ou nao, na sexta, pois minha escolha ja estava feita, seria Rennes 1. Fui, né? Mas todos sabiam da minha classificacao, da minha preferência. Fiquei em 3o lugar em Rennes 2. De toda maneira, apresentar os trabalhos nessas entrevistas, mesmo naquelas que nao interessam muito é uma otima forma de se tornar conhecida, de desenvolver o networking.
Esses dias me ligaram com uma proposta de pos doutorado em uma universidade do sudoeste. Isto porque ficaram sabendo sobre as minhas tematicas de trabalho. Tive que recusar, porque prefiro ter um cargo fixo.
Faz alguns dias que terminei toda essa funçao, estou tentando repor as energias, mas tenho tido muito trabalho na minha volta a Grenoble. Preciso de férias urgente !