Li um artigo interessante que me inspirou a escrever este post. Na verdade é um assunto que volta e meia vem nas rodas de conversa com outros brasileiros que conheço aqui. Quando falo que ja foi feito plebiscito para saber se o Sul se separaria ou não do "resto" do pais, muitos não acreditam. Mas sim, houve e obviamente não passou e a Republica Piratini ou dos Pampas não viu o dia nascer.
Pelos dados apresentados neste artigo, umas 30 mil pessoas seriam a favor do separatismo o que representa uma minoria. Um falso discurso mobiliza a panelinha campeira, o de que se o Sul se separasse poderia ter niveis elevados de qualidade de vida, agricultura de qualidade, população de maioria branca e por ai vai. Quase uma Suiça Latina. Ledo engano.
Ao contrario do autor do artigo que eu citei aqui, não acho que o unico separatismo que realmente aconteceu e deu certo foi a criação da Republica Oriental do Uruguai. O Uruguai pode ter qualidade de vida em Montevideu, mas a decadência do pais é notoria, sobretudo quando atravessamos a fronteira. Tenho familia que mora em Jaguarão, extremo sul do pais, e posso dar o meu testemunho de que o contraste entre o Brasil e o nosso pais vizinho é grande, eles são em geral mais pobres e tem bem menos estrutura do que nos.
Podemos usar como exemplo o Uruguai para tentar fazer uma simulação do que aconteceria se o Sul se separasse. Começamos pelo fato de sermos um pais pequeno, mas com vocação agraria. Onde estao os gauchos de sucesso na plantação de soja, de vinhedos e na pecuaria? Eles ja passaram a fronteira virtual, estão no Nordeste, estão no Centro-Oeste e também exploram o Norte. Daonde vem mesmo as riquezas da Republica Sulista? Como não temos agricultura diversificada, teriamos que importar açucar do Brasil, assim como fazem nossos vizinhos uruguaios.
A industria no Uruguai é o forte do pais? Quem ja foi, pode verificar que os modelos de carros deles são super ultrapassados, beirando o risco de acidentes de tão mal conservados. Como são importados da Argentina ou do Brasil, é tudo muito caro o que se torna um luxo inacessivel para muitos. Alias, é o que acontece com muitos bens de consumo que eles não produzem localmente e os tornam dependentes de gigantes como o Brasil e a Argentina.
Mas para não afundar com os hermanos, pois eles são gente boa, posso dizer que admiro muito o ensino nas escolas la. Eh tudo gratuito (do ensino fundamental à faculdade e acessivel a todos) e de qualidade superior a do Brasil (em geral). Acredito que num pais pequeno é mais facil de proporcionar certas estruturas fundamentais para o desenvolvimento.
Culturalmente, acho que os gauchos, grupo no qual me incluo, são bem diferentes dos brasileiros de outros estados. Talvez pelo RS estar numa zona de guerras e conflitos entre portugueses e castelhanos, tenhamos uma identidade um pouco distinta. Apos com a forte imigração alemã e italiana, evidente que isso mexe nos valores e na maneira de se organizar de uma sociedade. Igualmente tivemos a interferência da cultura indigena e africana (apesar de serem pouco citadas nos discursos separatistas) que permanece até hoje em rituais e lendas passados de geração em geração, entre os quais encontramos a bebida simbolo: o chimarrão, herdado dos indios que antes ocupavam estas terras meridionais. Em relação a isso, posso dizer que a maneira de nos comunicarmos é o que mais choca, somos mais diretos, talvez um pouco mais frios, mas não menos acolhedores, herança de uma origem da vida dura no campo entremeada de muitas guerras.
Parêntese: Para quem curte literatura, aconselho a trilogia "O tempo e o vento" de Erico Verissimo, na minha opinião uma das melhores obras que ja li na vida. Não é a toa que ja foi traduzida em varias linguas, inclusive em francês "Le temps et le vent". Eh um romance épico dividido três partes que conta a historia da formação do RS, antiga Provincia de São Pedro, misturando fatos historicos e ficção. Não sou separatista, mas sou um pouco bairrista (confesso).
Conforme o autor do artigo, também acho que a onda separatista não é privilégio do Sul, varias regiões ja quiseram sua autonomia. Aqui na França conheci um professor recifense que era avido defensor do Nordeste Independente. Ele, inclusive, ja havia publicado livros sobre o assunto e dizia que hoje um dia ha um neo colonialismo da região sul e sudeste no nordeste brasileiro, através da exploração da mão de obra barata. Concordo com o argumento que o Nordeste é ainda muito explorado o que favorece as diferenças sociais, mas não concordo que a solução seja o separatismo, nem para o Sul, nem para o Nordeste ou outra região.
A força do Brasil é essa, a diversidade. Culturas diferentes, industrias em varios setores, forte na agricultura (poderia ser ainda mais diversificada), com paisagens para todos os gostos... e finalmente o tamanho. Como exemplo, somente o Brasil e os Estados Unidos podem viabilizar a produção de biodiesel, pois são os dois unicos paises no mundo com terras agricultaveis suficientes para que isto não prejudique a produção de alimentos. O Brasil tem crescido ainda mais no cenario mundial: faz parte do G20, tem a oitava economia do mundo, e faz parte dos paises do BRIC, da exemplo à Europa de como sobreviver à crise economica. Por outro lado, é um pais que apresenta problemas proporcionais ao seu tamanho, encabeçando a lista esta a corrupção e a diferença de classes. Sera que poderiamos nos separar delas?

Oi Laura,
ResponderExcluirMuito legal o post. Sempre vai ter gente separatista por todo lado. Tem até neonazista pregando "raça ariana", o que além de preconceito é ignorancia pois a América é continente de imigrantes. Até os indios tinham varios grupos étnicos bem definidos antes dos europeus chegarem, portanto raça pura fica dificil...
Concordo contigo que a diversidade é fundamental. A mentalidade do nosso povo precisa ser mudada e nao criando varias naçoes (o que acho dificil de acontecer). Talvez um pouco mais de patriotismo e uniao ajudariam, mas acho a corrupçao desestimula qualquer um a ser patriota. De norte a sul, no Brasil e toda a América Latina a corrupçao aparece em varias "cores e sabores".
Exatamente, concordo com tudo que tu escreveste no teu comentario, movimentos xenofobos, racistas são totalmente despropositados, ainda mais conhecendo as origens da humanidade. Somos todos africanos, não é mesmo?
ResponderExcluirAqui na França, cada regiãozinha possui grupos separatistas, a Savoie que antes fazia parte da Italia e depois foi anexada à França, a Bretagne que tem uma cultura bem especifica vinda dos povos celtas até com lingua propria, o bretão. Ao invés de dividir, somar culturas é muito mais enriquecedor, da força às regiões, e um pouquinho de tolerância ou ao menos um pouco de curiosidade sobre o que é diferente abre as mentes.
Eu digo isso baseada na minha propria experiência. Antes sempre fechada no meu mundinho sulista brasileiro, tinha idéias pequenas. Apos de ter me mudado para França, tendo conhecido amigos de todos os cantos brasileiros e da França, sei que mudei muito meu modo de pensar. Como toda geminiana, sou bastante curiosa, e quanto mais se conhece o outro, maior a probabilidade se entender a evolução de uma cultura.
Como expliquei no post, so nao sou tolerante com a corrupção que é o grande mal do nosso pais.